Portal da Família
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O HOMEM ATUAL - I |
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André Gonçalves Fernandes |
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A figura de Sônia, do livro Crime e Castigo, de Dostoiévski, traduz o diagnóstico do genial escritor russo para o homem moderno: uma menina de 17 anos, pai alcoólatra e irresponsável, madrasta deprimida, neurótica e agressiva, vários irmãos daqui e dali. Neste contexto, Sônia é levada à prostituição para o sustento da família (ou do que sobrou desta). Contudo, ao contrário da percepção esperada pelo leitor e, principalmente, por Raskolnikov, um estudante influenciado por teorias sobre a origem estritamente humana da moral (na tradição de Maquiavel a Nietzsche), Sônia não guarda rancores do próximo. Muito pelo contrário, sente misericórdia por todos e, inclusive, por sua clientela. Sônia não brilha para nós, seres voltados para o nosso umbigo, simplesmente porque ela ama. Para ela, se alguém ama, então é livre. Segundo o autor russo, quando Sônia, em seu movimento de amor, torna-se opaca (antes, uma menina perdida que, agora, necessita reencontrar-se), estamos no reino do niilismo chique e científico, a saber, a ciência, e sua cultura, incapaz de produzir valor. O homem atual, guardando-se a devida cautela quanto aos limites antropológicos e sociais, é caracterizado por um relativismo (cultural e histórico, fruto do próprio processo filosófico e científico moderno) que, por vezes, é apontado como solução para uma boa convivência democrática, dentro do espectro da tolerância à diferença. No entanto, tal atributo gera, sob outro ângulo, um impasse intelectual e prático, sobretudo no campo das aporias éticas. Outro dado marcante do homem atual é sua completa dependência de toda situação que realize seu desejo. Aliás, tal constatação, que poderia ser meramente empírica, deixou esta esfera e ingressou no terreno axiológico, como um dos poucos critérios de valor. Some-se o apego generalizado pelas coisas materiais, as quais precisam ser adquiridas de forma imediata, paradoxalmente, na mesma velocidade com que, depois, saturam a pessoa. Assim, a tríade relativismo-consumismo-hedonismo substituiu, num só golpe, o eixo que sustentou a humanidade por séculos, formado pelo transcendente, pela esperança e pela alteridade. Evidentemente que a assunção da primeira tríade foi fruto de evolução do pensamento moderno, definido, primeiramente, sob a bandeira da cultura de separação entre filosofia e teologia (Descartes) e entre filosofia e ciência (Kant). Em seguida, pela cultura de identidade, quando identifica o absoluto com a história (Hegel) ou com a ciência (Comte) e pela cultura do efêmero, que nasce com a adoração do tempo, e pelo desprezo à verdade, representado pelo praxismo. Entretanto, não se trata de refutar totalmente a cultura moderna, pois penso que cada uma de suas facetas contribuiu materialmente para o tesouro intelectual da humanidade, naquilo que de transcendente subsistiu em cada esforço em direção à verdade. As lições úteis devem ser conservadas, dentre as quais estão a depuração do que poderia se chamar de sensibilidade filosófica e os erros verificados a partir do desenvolvimento aberrante de algumas correntes de pensamento. Diante deste humanismo antropocêntrico que assinala a humanidade, convém refutar o antropocentrismo e não o humanismo, porquanto é legítima a valorização do homem, mas não a sua absolutização, que degenera no niilismo. Em substituição, proponho um humanismo teocêntrico, único verdadeiramente integral, sem atavismos nostálgicos da Idade Média e sem refutar o grandioso e magnífico desenvolvimento das ciências no curso dos últimos séculos. As ciências e a filosofia não mais estarão, como outrora, numa relação de instrumentalidade nos confrontos com a teologia, porém deve ser conferido o lugar certo na ordem de valores para as mais elevadas formas do conhecimento. É induvidoso que uma inteligência formada exclusivamente pelos hábitos mentais da tecnologia e das ciências dos fenômenos dificilmente vive um ambiente normal para o transcendente. Não obstante, a inteligência natural, que opera no senso comum, está centrada no ser espontaneamente. Nunca os homens tiveram tanta necessidade do clima intelectual da filosofia, da metafísica e da teologia especulativa. Talvez, por isso, exista algum medo nesta aventura intelectual, a única via eficaz para reintegrar a inteligência ao seu funcionamento mais natural e profundo e, logo, reconciliar de novo as suas vias com o caminho próprio do transcendente. Nesse momento, a menina Sônia torna-se menos opaca, e podemos perceber que ela é, na literatura, a encarnação do verdadeiro humanismo que vaga por um mundo de cegos. |
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André Gonçalves Fernandes, nascido em 1974, é Juiz de Direito da 2ª Vara Cível da Comarca de Sumaré/SP e Diretor do Fórum. Graduado, no ensino fundamental e médio, pelo Colégio Visconde de Porto Seguro em 1991. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1996. Atua como magistrado desde 1998. Articulista do Correio Popular de Campinas desde 2002. Casado, pai de 4 filhos e Coordenador do Grupo de Pais do Colégio Nautas. É membro da Comissão pela Defesa da Vida da Arquidiocese de Campinas/SP desde 2008. Fala inglês, francês, alemão e italiano. E-mail: agfernandes@tj.sp.gov.br Publicado no Portal da Família em 06/08/2008 |
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